Gostava de recomendar ao leitor o seguinte exercício de raciocínio do jogo político- partidário que ultimamente se constata nos discursos públicos dos líderes da Coligação nos comícios dos seus partidos. Não restam dúvidas que a Coligação do centro direita está a funcionar bem desde logo pela simbiose que existe entre a personalidade Passos e Portas. Provavelmente ambos são muito pragmáticos e reconhecem a necessidade de se ajudarem mutuamente, mas o meu exercício vai para além dessa discussão meramente formal. Materialmente os líderes estão a revesar-se, ou seja estamos a assistir à Portização das bases sociais democratas em simultâneo com a Passificação da classe centrista. Uma novidade nesta campanha de uma quase AD que pode trazer o auguro de algo novo há muito ambicionado pelo centro direita português, a formação de um grande partido de centro direita fundindo PSD e CDS através de duas lideranças simbióticas.

Se por ventura tal vier a acontecer na democracia portuguesa, estou certo que será com Passos e Portas pois parece-me que ninguém está à altura para suceder a este dois líderes nos seus respectivos Partidos e no pior dos cenários que a Coligação perder ainda que por pouco as eleições, ambos continuarão a liderar o PSD e o CDS respectivamente. Eventualmente só Rio e Melo conseguiriam uma ligação tão forte entre ambos os Partidos, mas tanto um como o outro já estiveram bem mais próximos de chegar à liderança destes Partidos. Desta feita, o futuro da Arca de Noé da Direita portuguesa fica entregue ao resultado das próximas legislativas de 4 de Outubro e ao apoio que ambos concederem ao candidato Presidencial do centro direita que tem o dever de as vencer após uma década de Cavaco em Belém independentemente do resultado das primeiras eleições. Talvez seja o tempo de voltarmos a um Partido Popular Democrata, acolhendo o popular do CDS e o democrata do PSD, retirando-lhe a carga ideológica esquerdizante do social e a sua aproximação à família socialista. Exemplo histórico disso foi desde logo a adesão ao PP Europeu e não ao PES pelo PSD em Novembro de 1996, passada uma década da entrada na CEE. A adesão ficou a cargo do líder do PSD de então, Marcelo Rebelo de Sousa, que sempre defendeu a entrada no PPE. Foi mesmo o primeiro português a tornar-se Vice- presidente do PP Europeu enquanto líder do PSD. Talvez seja por tudo isto, ele próprio o terceiro vértice do triângulo que limita o centro direita português que encerra a máxima de Sá Carneiro: “Uma maioria, um Governo e um Presidente”. Pragmáticos como são tanto Passos como Portas sabem que precisam de Marcelo, será sempre o candidato melhor colocado do centro direita português para disputar umas eleições em situação de Coligação pré- eleitoral por unir facilmente ambos os Partidos em seu torno, não apenas pela sua notoriedade e reconhecimento académico mas sobretudo por se encontrar na área mais à direita dentro do que conceptualmente se designa de social- democracia em Portugal. Já quanto aos centristas, alguns não apreciam o seu registo público mas reconhecem que só com ele é possível o centro Direita ganhar as próximas Presidenciais, na certeza de que qualquer outro candidato abdicará a seu favor.

Talvez por estarem também os líderes conscientes da sua importância no panorama político português, permitiram a sua entrada na campanha primeiro em Braga e depois em Leiria. É facto que deixaram entrar outros pesos pesados como Rio em Viseu e Durão e Nogueira por vídeo, mas deixarem entrar Marcelo na arruada e comício de encerramento em Lisboa eleva a fasquia a um outro patamar de compromisso para quem pode decidir a sua derradeira candidatura. Marcelo entra amanhã em modo Presidenciais e talvez faça disparar o resultado já de si francamente positivo, apesar de não se vislumbrar hipóteses de conseguir a maioria absoluta. Marcelo, Rio, Balsemão, Marques Mendes e Santana Lopes podem ajudar marginalmente nas intenções de voto, mas não vai chega percentualmente para a maioria que a Coligação deseja. A antevisão do resultado de 4 de Outubro é simples: a Coligação de centro Direita vence as legislativas mas precisará do PDR se quiser governar em maioria absoluta, caso contrário Passos e Portas terão que aguentar o Governo até Julho do próximo ano, uma vez que com eleições Presidenciais em Janeiro de 2006 não há possibilidade de marcar novas eleições. A Constituição impede expressamente que nos seis meses de fim de um mandato presidencial e nos seis meses de início de outro sejam marcadas eleições antecipadas. Perante este impasse, e não havendo necessidade de parecer do Conselho de Estado, cabe a Passos e Portas governarem até Julho de 2016, a não ser que haja lugar ao chumbo do programa de Governo ou do Orçamento de Estado pela maioria da futura composição da Assembleia da República.