Da legitimidade constitucional à ilegitimidade política: a transposição dos muros da vergonha da Esquerda que levou à ambição de formar um bloco radical contrário à vontade popular

É uma feliz coincidência a publicação deste artigo por altura da 100ª Edição do Semanário para onde já me habituei a escrever periodicamente, do qual para tive recentemente conhecimento que as minhas crónicas do “Debate do Estado da Nação” são lidas por mais de sete mil leitores. É um facto muito me honra. Farei por manter a equidistância e independência no comentário.

A minha última crónica remonta à semana antes das eleições legislativas de 4 Outubro. Cabe-me agora fazer a análise dos factos políticos desde aí até ao dia de hoje, da relevância do se tem passado no quadro constitucional português e no xadrez político. Para surpresa de muitos, a Coligação PaF venceu as legislativas com quase 39% (elegendo ontem mais três deputados no círculo fora da Europa) quando há um ano atrás estava dez pontos percentuais atrás do PS, que acabou por ser o grande derrotado destas legislativas. O grande vencedor da noite, pelo exponencial crescimento, foi o Bloco que capitalizou o voto do descontentamento com os últimos quatro anos de governação mas não vê no PS alternativa de confiança para romper definitivamente com as políticas que criticamente apelidam de Direita. O PCP foi o segundo grande derrotado, deixando de ser terceira força política no actual quadro parlamentar. Sucede mesmo que em freguesias sede de concelho, cujo município é governado pelo PCP, como o caso de Loures, a Coligação conseguiu alcançar mais votos que o PS e o PCP.

É ainda de salutar a eleição do deputado do PAN, tornando o parlamento ainda mais plural e fazendo-se história com a existência de uma sétima força política com assento parlamentar. Nunca tal havia acontecido na nossa jovem democracia. Curiosamente ficará sentado no meio do hemiciclo, não por uma mera questão logística mas porque é dificilmente enquadrável noutro lugar na actual conjuntura parlamentar. À sua maneira foi o terceiro vencedor da noite.

Falando dos resultados eleitorais em Odivelas, o PS venceu no nosso Concelho com 36% ficando cinco pontos percentuais à frente da Coligação. Ainda assim a Coligação leva 7% de avanço em 2015 face aos 32% obtidos pelo PS a nível nacional em 2011 e 2015. Foi um recuo enorme da direita odivelense. Recordo que em 2011 o PSD e o CDS juntos conseguiram 44% em Odivelas contra os 31% obtidos pelo então PM, José Sócrates. Odivelas andou ao revés do resto do Distrito e do País. É preciso que se diga que no Distrito de Lisboa, a Coligação PaF conseguiu vencer o PS, alcançando 37,5% face aos 35% do PS, porto de abrigo do candidato socialista. Foi também uma surpresa para todos a vitória da PaF na capital.

O anúncio de derrota de António Costa soou a uma vitória encapotada. Foi como se não tivesse dito tudo na certeza de que aquela derrota ainda lhe poderia ser útil no presente. Os mais cautelosos ficaram desconfiados, os apoiantes mais efusivos da Coligação não ficaram tão apreensivos quanto deviam. As reacções foram estranhas e envergonhadas, ninguém ousava celebrar um momento que foi bem recebido pelo principal partido da oposição. Ali havia gato. Passos alguns dias, percebeu-se quais eram os gatos- chamavam-se Catarina e Jerónimo. Afinal o PS que foi cordeiro durante a campanha virou lobo depois da derrota, querendo assumir o papel de fiel da balança entre a esquerda comunista e radical e a direita social democrata e conservadora. Tornava-se assim o mais importante entre todos os partidos no actual quadro parlamentar. Considerando-se dono e senhor da formação do próximo governo, António Costa começou imediatamente a encetar negociações com todos os partidos com vista a formar Governo depois de ter perdido as eleições e ao arrepio da vontade expressa publicamente pelo PR. Costa sabe bem que perdeu as eleições mas a sua ambição de governar levou-a a considerar a hipótese de formação de um Governo suportado por uma maioria parlamentar negativa. Significa isto que juntando os deputados eleitos de todos os outros partidos na AR, Costa conseguiu juntar ao seu redor mais deputados que os eleitos pela Coligação vencedora. A maioria do eleitorado sentiu-se traído com a sua estratégia oculta, considerando mesmo que é contrária aos princípios socialistas e à transparência democrática, e que apesar de legitimada pelos órgãos do Partido se tivesse sido antecipadamente anunciada não colheria a simpatia das suas bases eleitorais que suportaram o programa político levado até estas eleições. De acordo com declarações de destacados militantes socialistas, como Francisco Assis, João Galamba e Sérgio Sousa Pinto, que se demitiu a semana passada depois desta deriva radicalista do actual PS, fica claro que sentem que Costa está a conduzir o Partido até ao desfiladeiro de caminho tortuoso em tortuoso, sem grande possibilidade de escapatória.

A mês e meio dos 40 Anos da efeméride do 25 de Novembro, assistimos a uma tentativa frustrada de um golpe palaciano de António Costa para tomar de assalto o próximo Governo. O PS moderado de Mário Soares, pai fundador e ídolo político de António Costa, ficou definitivamente na gaveta. Este é o PS que se quer coligar com o PCP veja-se só, o mesmo que viu declinado pelo Presidente Soares em 87 a proposta de formação de Governo PS mais PRD pelo então líder da oposição Vítor Constâncio. Este PS de facto não é só radical, é revolucionário e reaccionário. Este PS é “Preciano”. Já só a demissão de secretário- geral do PS pode salvar politicamente António Costa, mas ele insiste em tentar sobreviver em balões de ar furando um a um com a picada final que serão as Presidenciais. Já se percebeu quem será a agulha que rebentará este balão. Anunciou no passado dia 9 de Outubro a sua candidatura.

Marcelo Rebelo de Sousa já anunciou formalmente a sua candidatura. É o candidato independente que colhe a simpatia do eleitorado de todo o espectro do centro direita. A frase que marcou o seu anúncio ao estilo kennedyano foi: “Chegou o momento de pagar a Portugal tudo aquilo que ele me deu. Tenho esse dever moral para com o meu País.” Rio anunciou hoje mesmo que desistiu de avançar para Belém a bem do País, a bem da divisão indesejável do eleitorado do seu espectro político diria e do seu próprio resultado eleitoral. No campo das Presidenciais, as novidades são poucas. Maria de Belém anunciou oficialmente, como se esperava, colhendo apoios de peso como Manuel Alegre, Vera Jardim e Almeida Santos. A frase que marcou o anúncio da campanha Belém 2016 foi: “Não nasci ontem para a política (em crítica clara a Sampaio da Nóvoa). Quero ser a Presidente de todos os portugueses , não quero favorecer o meu Partido em detrimento de nenhum outro (em alusão às tomadas de posição do actual Presidente da República)”. Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto mantém-se. A Direita conseguiu assim unir-se em torno de um único candidato Marcelo, a Esquerda dividiu-se tanto quanto possível. Marcelo conta já com 65% das intenções de voto para 2016.

Costa vai assim vivendo de balão em balão de ar até à picada final das Presidenciais…