Há um sentimento de dor e momentos de muita reflexão, depois dos crimes perpetrados pelo EI, Daesh ou ISIS, como queiram chamar a esta espécie de “humanóides” que vive ainda no século VII e nada tem que ver com o Islão que conhecemos, ainda que lhe possam ser dadas interpretações diversas e haja quem fale de um “velho Alcorão” e de um Maomé “oculto”, que não este que nos é dado a conhecer na actual versão, que já li e, numa interpretação pessoal, não encontro nele nada que se assemelhe a este tipo de “gente”.

Claro que num mundo onde a instabilidade campeia, situações da História recente levam-nos a pensar como questões de ordem geoestratégica permitem que se reunam condições para que aconteçam calamidades, tal como a barbárie que somos obrigados a assistir. No entanto, embora estes novos crimes tenham acontecido em Paris, não podemos esquecer que o autoproclamado Estado Islâmico tenha, há dias, fusilado duzentas crianças e sido descoberta, em território que por este já fora ocupado, uma vala comum com cadáveres de mulheres, diz-se que uma centena, cujo único crime é terem uma idade, ao que parece, superior a quarenta e oito anos. As mais novas foram entregues para servirem de escravas sexuais. Claro que muito mais seria possível dizer deste tipo de barbárie, em numero e terror, mas o que mais indigna, é que só Paris esteja no mapa e as denúncias fiquem pelo “escarafunchar” nos atentados na capital francesa, esquecendo outros, como os levados a cabo pelo similar grupo Boko Haram.

Terrorismo ou Terrorismos? Sobre as Questões das Estratégias…

Mas a memória não deve ser curta e não podemos esquecer os massacres levados a cabo na periferia sul de Beirute, controlada por forças armadas de Israel, sob o comando de Ariel Sharon, nos campo de refugiados de Chatila e Sabra, sobre palestinianos e libaneses, velhos e crianças, de 16 a 18 de Setembro de 1982, os quais parece que já foram esquecidos, embora, na ONU e ao tempo, tenham sido condenados.

Mas não vamos fazer julgamentos sobre a História mais recente, que os factos, por si só, nos obrigam, em consciência, a pensar. Todavia, recordo que depois da revolução de inspiração marxista no Afeganistão, onde imperava o analfabetismo e o uso de costumes conotados com a Sharia (lei islâmica, aqui, defendida pelos Talibans), bem como um completo obscurantismo, que os EUA e a Grã-Bretanha, para além de paquistaneses e outros países muçulmanos armaram e treinaram os movimentos que se opunham à revolução, o que levaram a um pedido de auxílio do governo afegão à então URSS, que veio mais tarde a intervir, numa guerra que durou de 1979/1989.

Bondade perante a boa intenção dos revolucionários que estavam a tomar medidas anti-obscurantismo? Talvez, mas o facto, conhecido pelo princípio geoestratégico da Anaconda (cobra), já usado anteriormente pelos EUA/CIA, em outros palcos de guerra, tinha como objectivo cercar a URSS na região fronteiriça com o Afeganistão. Portanto, a “invasão”, mesmo a pedido dos afegãos, era, também, uma necessidade estratégica dos soviéticos.

Para os EUA e a CIA, a revolução marxista estava a ser demasiado bem sucedida e havia que fazer alguma coisa. Daí o apoio armado aos grupos islâmicos (sunitas e xiitas), os Mujahidins, o que levou, posteriormente, à retirada da URSS, sendo, este, considerado o ponto final da União Soviética e o princípio do fim do já débil campo socialista – o qual, na verdade, teve início com Krutchev e o seu princípio de coexistência pacífica de campos oposto, que muito tem que ver com as medidas traçadas no chamado documento secreto, de destruição da imagem do falecido líder Estaline, em 1953. Todavia, o secretismo do documento foi em vão, devido à acção dos serviços secretos israelitas, através da acção de um elemento da Mossad. Ainda antes do fim (?) da Guerra Fria, a grande estratégia de domínio global dos EUA começou a ser mais evidente, com Ronaldo Reagan a penetrar no seio do campo chamado socialista, através do “auxílio” a uma Polónia em decadência. Seguir-se-ia o “reaganismo”, o neoconservadorismo e o neoliberalismo, agora dominante na política económica da chamada União Europeia.

A Europa, a União Europeia, o Ocidente…

Mas o que tem isto a ver com Paris? Talvez se esteja a puxar muito a bobina da História para trás, dir-se-á. Não! Os Talibans, Bin Laden, a Al-Qaeda… e o ISIS, as Jihad, hoje o EI ou Daesh – que nasce da dissidência com esta última organização – são resultado do facto de os EUA e o Ocidente, antes e depois do 11 de Setembro, terem deixado cair no Iraque o seu aliado Saddam Hussein, tão útil na guerra com o inimigo americano chamado Irão, a propósito de que teria armas de destruição massiva, o que não se confirmou. E também, dizia George Bush, que havia necessidade, tão a propósito, de impor aos iraquianos a democracia pela força.

Para além de tudo isto, mais recentemente, vieram as chamadas Primaveras Árabes e em todo este espaço de tempo, por razões de ordem estratégica, mais desestabilizada ficou a região, para não falarmos da cobiça do petróleo – agora ao preço da “chuva” e usado para a compra de armamento pelo EI, bem como a venda de antiguidades e a cobrança de impostos no território ocupado, para além do saque de milhões de dólares depositados nos bancos -, da reconstrução do Iraque por empresas dos EUA, conforme o planeado por Bush e Dick Cheney.

Segundo o prof. Freitas do Amaral, que se manifestou contra a evasão do Iraque, abrir-se-ia, aqui, uma caixa de Pandora, o que veio mesmo a acontecer, depois de uma perseguição dos xiitas sobre os sunitas, na guerra civil que se seguiu à morte de Saddam Hussein e com a retirada das tropas dos EUA por ordem de Obama. Afinal, a ambição americana não está inocente nisto tudo, não esquecendo, também, o quadrunvirato Bush, Aznar, Blair, Durão Barroso (a quem, talvez como prémio, lhe foi oferecido o lugar de presidente da Comissão Europeia). E é aqui entram os agora alvos europeus do EI e do chamado califado.

De Reza Pahlavi ao Ayatollah Komeini

Evidentemente que o último assalto das primaveras árabes na Síria, país apoiado pela Rússia e que está demasiado perto das suas fronteiras, bem como os xiitas do Irão e o esforço de Obama para chegar a um entendimento com o seu grande inimigo, fazem parte de uma estratégia de domínio global. Mas há que ter em conta uma história que não começa em 1978, com a ocupação da embaixada dos EUA e põe fim ao reinado de Reza Pahlavi e com a implementação revolucionária de um Estado teocrático, mas sim com Mossadeq e a queda do seu governo legítimo, em 1953, depois de um golpe de Estado levado a efeito por intervenção dos EUA e da CIA, bem como dos serviços secretos da Grã-Bretanha, o que originou a conversão ao Ocidente do xá Reza Pahlavi, da então Pérsia, com o uso da Savak (polícia política de métodos bárbaros). E a tolerância das “ditaduras” bem comportadas no Egipto, Líbia (até certo ponto) e Síria, este país por via da fronteira da URSS/RÚSSIA, são, também, dados a reter, numa ambição de domínio geoestratégico.

EI e a Nova Estratégia do Terrorismo e do Radicalismo Islâmico

Na Europa há muitos islamitas de descendência ou de segunda e terceira geração, na sua maioria em França, mas mesmo tendo em conta não só o actual neoliberalismo em voga e uma marginalização étnica, em especial jovens sem trabalho, não é daqui que a esmagadora maioria do perigo vem, embora seja um campo de recrutamento para o EI. Repare-se que são muitos os de descendência não islamita que vão até à Síria para servir o EI, jovens de uma classe média, até pela razão de vermos entre eles portugueses idos de Portugal; nem os migrantes são o grande perigo, que a extrema-direita tanto refere: os terroristas do EI não vêm, estão na Síria e Iraque, muito embora usem inúmeras células espalhadas pelo mundo e não só em França. O problema surge, exactamente, da xenofobia e da insegurança acumulada, do aproveitamento do Espaço Schengen, dos movimentos não só no continente europeu, mas, também, em todo o Mundo, por via da globalização capitalista e do desejo de controlo geoestratégico global. O fim do EI não se conseguirá com bombardeamentos e seus danos colaterais, mas, se calhar, também não, como se usa dizer, com uma intervenção com “as botas no terreno”.

A realidade é que um proclamado Estado, que a si próprio de denomina de Califado, do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), se move de tal forma que a ocupação de território na Síria e no Iraque – com o aproveitamento de estrategas sunitas e material de guerra, herdados da guerra civil e que aumentou a influência sunita, depois do fim da era Saddam Hussein – é rápida. Depois detém um forte poder económico pelas razões já aduzidas, o que obriga a que se vá muito mais longe e a montante, numa ofensiva contra quem ganha com os negócios da guerra na Síria em que lutam a aposição a Bashar Al Assad, este apoiado pela Rússia; o EI/DAESH/ISIS e os curdos (os Peshmerga), que de há muito reclamam uma pátria independente, saindo da tutela da Turquia e Iraque.

Quem compra petróleo por troca com armamento? Por onde passam os negócios com o EI? Na verdade, parece que no palco de guerra são mesmo os curdos quem lutam contra vários inimigos. Mas não nos podemos esquecer a rivalidade entre sunitas e xiitas, a qual se prende com Maomé e os verdadeiros e legítimos seguidores do profeta. Mas este é um tema a abordar, ainda que, neste contexto, em outra oportunidade.

Começou a III Guerra Mundial?

Entre o medo e as geoestratégias, o Mundo parece estar a viver uma espécie de III Guerra Mundial, que há quem opine de civilizacional. Mas resumir, somente, a esta definição, parece algo simplista e dá ideia de que as potências preferem não falar dos verdadeiros motivos e interesses envolvidos. No fundo, sugere-nos a ideia de que as medidas na Europa e EUA, na perspectiva do combate ao extremismo islâmico, estão mais voltadas para a preservação de um “status quo” do que para a protecção das pessoas.

 Fernando Tudela